Raposas Sonham com Gatos?

SEGREDOS SUBMERSOS

S-2857 • L9 Fluxluna • D08 Lilibe
(eq. gregoriano, 27/12/2112)

Fluxluna corre em fio de brilho vivo.
Lilibe derrama luma em curva suave.
A maré canta claro no ar da cidade.
A história tece caminho em corrente leve.”

NAGASAKI

Arranha-céus de néon erguiam-se como sentinelas da cidade.

Kūchū no Kyūden, Palácio Flutuante, elevava-se acima de tudo.

Mizukagami, Espelho d’Água, pulsava no centro agitado.

Kurayami no Sora, Céu da Escuridão, afundava na base, trevas rastejavam.

Hologramas flutuavam sobre ruas estreitas e antigas, formando um caleidoscópio de luzes fosforescentes e sombras corespirais.

Vidro e metal policromados quase engoliam os templos e casas de madeira.

Relíquias de um passado sufocado.

Cicatrizes das guerras corporativas.

Corridas tecnológicas abriam-se nas favelas iluminadas.

E-pichações e grafites vibrantes pulsavam em detritos e telas hackeadas.

As ruas fervilhavam.

Mercenários.

Hackers.

Comerciantes.

Artistas.

Moradores.

Turistas.

Vestiam uma fusão de tradição.

Quimonos adornados com circuitos.

Tramas de nanites.

Implantes luminosos.

Pixels dançando sobre tecidos de LED.

Aerocarros deslizavam pelas aerovias.

Drones vigiavam.

Entretinham.

Adwares pipocavam como enxames digitais.

No alto, Kūchū no Kyūden abrigava uma natureza rara.

Nanoplantas e metárvores dominavam.

Simulacros frios de um verde extinto.

Abaixo, encoberta pelos gigantes de vidro e aço, estendia-se a Praia de Kaigan, em Tairamachi.

As águas refletiam as luzes artificiais das plataformas oceânicas.

Torres de controle climático.

Pontilhavam o horizonte como estrelas mortas.

Areia formava um mosaico de metapartículas:

Resíduos da exploração industrial.

Biotecnologias experimentais de modificações ambientais.

Um chão de cicatrizes.

Ondas oscilavam entre um esmeralda radioativo e azul neon cintilante.

Deslizavam sobre poluições digitais.

Detritos tecnológicos.

Restos de drones.

Partes de androides.

Engrenagens de robôs enferrujadas.

Gotas pingavam em hologramas difusos.

As barracas de comida arrastavam-se como vultos entre palmeiras murchas.

Luminárias tremeluziam sob a neblina roxa pixelada.

O fedor de frituras queimadas.

Lixo marinho oprimia os pulmões.

Impregnava-se na pele como miasma viscoso.

A brisa salgada incutia um travo ferruginoso na língua.

Vestígios da corrosão ácida.

Pescadores, rostos sulcados pelo tempo.

Mãos calejadas.

Tentavam a sorte em águas cada vez mais escassas.

Olhos vazios refletiam a luta por vidas sempre além do alcance.

Ao entardecer, os hologramas falhavam ao acender.

A música camuflava a apatia.

A festa continuava.

Ecos de risadas ressoavam no ar.

Algumas ocas.

Vazias como ecos sem alma.

Tosses rompiam o fluxo.

Marés vinham e voltavam.

Traziam suplícios dolorosos de passados, presentes, futuros.

Hikaru brincava.

Pulava entre pedras umedecidas.

O musgo traiçoeiro escapou sob seus pés.

Escorregou.

O impacto veio rápido.

O frio da água subiu até seus joelhos.

Uma caverna.

Esfregou a cabeça dolorida.

A pele arranhada ardia.

Tateou o entorno.

Buscou apoio nas rochas escorregadias.

Procurava maneiras de voltar para o exterior.

Tropeçou.

Seus dedos encontraram algo.

Um quadrado marrom tremulava água abaixo.

Pegou o objeto.

Girou nas mãos, sentindo o peso do tempo nele.

Caderno envelhecido.

Capa de biocouro.

Folhas amareladas.

Encharcadas.

Poderia ser lixo para muitos, porém o coração e os olhos de Hikaru reluziram diante daquele tesouro.

Nem ousou mexer muito.

Temia despedaçar as páginas frágeis.

Enfiou-o debaixo das roupas.

Protegia-o da umidade.

Subiu nas paredes da caverna.

Apoiou-se e subiu na pedra.

Mais um impulso.

Então, de volta à superfície.

Correu para casa.

O atrito do biocouro molhado contra sua pele o empolgava.

Ao entrar, encontrou a mesma cena de sempre.

Sua mãe, desmaiada no sofá.

Centenas de injeções de neoheroína acumuladas em pilhas sobre a mesa.

Hikaru seguiu direto para seu quarto.

Colocou o caderno onde o ar circulava melhor.

Virou as páginas uma a uma.

Com cuidado.

Dedos deslizavam delicadamente sobre as folhas úmidas.

Seu trabalho levou horas, mas foi recompensado.

O caderno revelou-se um diário.

Ele só desconhecia tudo, bulhufas.

Nada fazia sentido.

Letras curvas.

Símbolos intricados.

Desenhos como padrões indecifráveis.

Que língua era aquela?

Uma mensagem oculta esperando para ser decifrada.

Tinha que descobrir.

Seu único acesso à internet era pelo Senhor Saito.

Mas, a essa hora, o velho cochilava.

Hikaru já pedira tantas vezes para usar o terminal.

Todas negadas.

Pouco importava.

Tinha que desmascarar a linguagem.

Aqueles símbolos e desenhos chamavam por ele.

Ele precisava atender.

Esperou o anoitecer.

A mãe acordou apenas para fazer a janta.

Logo se entupiu de neoheroína de novo.

Capotou no quarto.

Hikaru esgueirou-se pelas ruas até a casa de Aio Saito.

O velho carregava uma expressão permanentemente sisuda, como esculpida em rocha.

Cabelos brancos desgrenhados.

Olhos pequenos, afundados, azul opaco.

Sempre desconfiados.

Vestia suéteres puídos, calças largas.

Sua casa destoava das demais.

Janelas empoeiradas.

Ervas daninhas devoravam o jardim.

Ao redor, as outras residências definhavam.

A maioria vazia. Abandonada.

Penumbras do que um dia foram.

Os moradores partiam.

Buscavam lugares mais promissores.

Ocasionalmente, um latido rompia o silêncio.

Farfalhar das folhas.

Vento sussurrando risadas infantis inexistentes.

O computador de Saito ficava em um cômodo escondido, porém Hikaru sabia de uma janela.

Por acaso, do tamanho exato dele.

Ele só precisava subir no telhado do vizinho.

Pular entre as casas.

Destravar o fecho…

A cabeça rodou.

Determinação queimando.

Nem pensou.

Seus pés sabiam onde pisar.

Instintos o guiavam.

Um ruído distante encobriu seu passo fora do tom.

O zéfiro dançou ao seu redor quando saltou entre os telhados.

Pousou como um gato furtivo.

O fecho abriu-se sob seus dedos com familiaridade.

Já era acostumado.

O silêncio reinava.

Tinha que ser mais silencioso que a própria quietude.

Um passo de cada vez.

Alcançou o computador.

Clique

A holotela abriu.

Escaneou o caderno.

A Essência Tecnológica analisou:

Sugere ser um diário de uma cientista francesa sobre quantum-nanotecnologia.

Francês?

O grunhido veio de perto.

Hikaru congelou.

Depois, disparou.

Olhava apenas adiante.

Mal dormiu naquela noite.

Nos sonhos, vislumbres de pilhas e pilhas de livros.

HERANÇA OCULTA

Sabia para onde ir:

Biblioteca Kigen, em Mizukagami.

Mas como chegaria lá?

Precisava de um adulto.

Precisava da mãe.

Chiyo Chiba.

27 ciclos.

Cabelos longos de preto profundo.

Caiam desordenadamente sobre os ombros.

Olheiras escuras.

Rugas precoces marcavam seu rosto delicado.

Olhos castanhos, opacos, distantes, como se presos em uma ilusão indespertável.

Corpo esguio.

Ossos proeminentes.

Pele seca.

Desgastada.

Vestia moletons surrados.

Movia-se como um sussurro quebrado.

Oscilava entre o desespero e lampejos de controle.

Hikaru aproveitou um desses momentos.

Baixou os olhos.

“Okaasan… me leva pra Biblioteca Kigen?”

Chiyo apertou os olhos.

O preto da íris de seu filho lembrava o canalha do pai.

Um covarde que fugiu para Kurayai no Sora.

Quem sabe em busca do abraço espinhoso da Ninkyō dantai.

“Tá querendo o que na biblioteca, Hika-chibi?”

Seu timbre suave envolvia o menino.

Lembrava-o da doçura corrompida dela.

“Quero um dicionário de francês.”

Ela arregalou os olhos.

“Shiu, tá doido?”

Não fala isso assim.

Senhor Saito tá metendo ideias esquisitas em você.

Hikaru gesticulou energicamente.

“Senhor Saito, não tem nada a ver.”

Suas mãos pequenas enlaçaram os dedos longos dela.

“Por favor.”

Uma corda esquecida vibrou dentro de Chiyo.

Uma fugaz lembrança de seus meses na faculdade.

Antes de tudo desmoronar.

Antes do maldito inominável pai de Hikaru.

Antes de ela perseguir a química nos laboratórios.

Agora a injetava em si mesma.

O futuro interrompido fluindo pelas veias.

Desejava evitar que ele olhasse para o abismo como ela olhava.

Antes que se entregasse à próxima dose, vestiu da melhor maneira que pôde ela e Hikaru.

Fazia quanto tempo desde que pisara na cidade?

Mirai Yokocho.

Um bairro vibrante ao redor da Biblioteca Kigen.

Nanolojas.

Estúdios artísticos.

Mercados.

Lojas exóticas ladeavam as ruas vivas.

A atmosfera pulsava com cores caóticas.

Sons eletrizantes.

Olhares tortos em sua direção.

Chiyo se sentia deslocada.

Mesmo assim, como poderia ignorar o brilho no rosto de Hikaru?

Entraram.

Estantes de madeira escura.

Abarrotadas de livros.

Erguiam-se entre hologramas flutuantes.

Tablets e holotelas projetavam dados em uma dança de luzes fulgentes.

Suave zumbido dos robôs organizando os itens.

Estalo quase inaudível das interfaces digitais.

Vozes baixas na área de leitura.

Outras empolgaram-se nas partes comerciais.

Cheiro do papel envelhecido permeava o ar.

Um toque de metal frio nas mesas.

Cadeiras de couro macio ofereciam conforto aos estudiosos.

O aroma do café fluía de um canto discreto.

E agora?

Como iria perguntar sobre aquele assunto?

Hikaru soltou sua mão.

Agitou-se entre as estantes e máquinas.

‘Okaasan, olha aqueles droides!”

Chiyo o agachou em um canto vazio.

“Hika-chiba, quietinho.

Vamos conseguir o que tá procurando.

Acho que por aqui…”

Ela sabia bem que aquilo estaria fora dos acervos para ser pesquisado.

Tampouco para o público.

Procurou pela área internacional.

Discretamente, estudou o robô vigiando a área restrita.

Tinha que distraí-lo.

Mas como?

Hikaru pegava os livros.

Passava pelas páginas.

Os olhos deslumbrados.

Sua mãe teve uma ideia.

“Chiba-chiba, cê viu aqueles insetos robôs do outro lado?

Soube que pode pegá-los, hein?”

Ele nem piscou.

Correu para o outro corredor.

Logo, seu plano deu certo.

O robô-vigia, Kōsetsu, foi verificar a confusão.

Chiyo meteu-se para dentro.

Respirou fundo.

O coração acelerado.

Pesquisou no acervo interno pelos termos franceses.

Encontrou algo na prateleira 76-RT.

Olhou para os lados.

Infinitos corredores de ambos os lados.

Chikushō, pensou.

Um passo.

A porta abriu.

Kōsetsu surgiu.

Hikaru se debatia em suas garras metálicas.

“Solta ele!”

Exigiu Chiyo.

A voz metálica soou.

“É a responsável pela criança?”

“Percebeu, foi?

Solta ele agora!”

Sua mãe ergueu os braços para pegá-lo.

Hikaru a abraçou.

Lágrimas nos olhos.

Olhos luminosos brilhavam em azul.

“Deveria estar fora daqui.”

O rosto dela aqueceu.

“Preciso encontrar algo pra ele.”

“Você deve ir embora.”

Kōsetsu curvou-se sobre ela.

“Só quero um dicionário.”

Hikaru a encarou com olhos chorosos.

A máquina estranhou.

Nunca presenciou tal situação.

Tinha que se adaptar.

De que maneira?

“Qual dicionário?”

“Francês.”

Achou informações imprecisas sobre aquilo em sua base de dados.

Deveria ser seguro.

Parte do seu papel era se conectar aos humanos.

Faria isso.

“Pesquisou no acervo?”

“Está no setor 76-RT.”

“Sigam-me.”

Kōsetsu os guiou pelas infindáveis passagens.

Nem Chiyo acreditava na sorte.

Seguiu em silêncio.

Temia um respiro errado.

Poderia alterar os algoritmos daquela tecnologia.

Seriam expulsos.

O corpo angular de Kōsetsu analisou uma seção.

“76-RT.”

Ela apressou-se a procurar no meio daquele odor de papel podre.

Mofado.

Livros em decomposição.

Algo tinha que servir.

Tapou o nariz.

Meteu as mãos.

Vasculhou.

Hikaru perguntava incessantemente se ela já tinha achado.

“Shiu, Hika-chan.”

Duas obras restantes.

Mãos vasculhando poeira e mofo.

Páginas frágeis sob seus dedos.

Tensão queimando na pele.

O peso de algo encadernado deslizou debaixo dos livros.

Um nome gravado na capa.

Francês.

Um dicionário.

“Achei!”

Chiyo travou por meio segundo.

Ia mesmo abraçar um vigia?

O pensamento nem terminou de se formar.

O calor já a envolvia.

Riu, abraçando o robô.

“Obrigada, Tsu.”

Saiu correndo como um foguete.

Hikaru riu com o ímpeto.

Uma falha de segundos bugou Kōsetsu.

Quando percebeu, acionou a segurança.

Já era tarde demais.

O vento balançava os cabelos de Chiyo.

Levava embora o peso por um instante.

O peito expandiu-se em alegria refrescante.

A luz preencheu os cantos apagados do semblante.

Coração acelerado.

Reflexo da adrenalina.

Dopamina.

Riso fluiu.

Gargalhava com Hikaru.

Saltitaram até o barraco em Kaigan.

Sua felicidade foi tanta.

Naquela noite, nem usou neoheroína.

Ajudou o filho a desvendar algumas palavras.

Contou histórias para dormir.

Adormeceu ao seu lado.

Sono tranquilo.

Sonhos doces sob o luar que minguava.

LAÇOS PARTIDOS

S-2858 • L3 Sintoluna • D27 Silenri

Sintoluna afina o fio do mundo.

Silenri sela a descida em brilho fino.
A maré desenha silêncio em curva viva.
A história prepara portal de começo.”

KURAYAMI NO SORA, SEDE DO CLÃ RYUHO-KAI, KARYŪ, CORRENTE DE FOGO

Chiyo acordou Hikaru com um farto café da manhã.

Deu-lhe um dinossauro de plástico.

Vestiu-o com roupas frescas.

O calor castigava a cidade.

Cinquenta graus derretiam o asfalto.

Sufocavam o ar.

Dirigiu até Karyū.

Conversava animadamente com Hikaru.

O caminho mergulhava em sombras.

Torres de aço e cristal erguiam-se como serpentes adormecidas.

Cada edifício, esculpido em símbolos dracônicos.

O espírito do dragão serpenteava.

Pixelado.

Piscava entre os guardiões robóticos patrulhando os becos.

As avenidas principais ostentavam vitrines de opulência.

Ciberimplantes.

Tecnologia de ponta.

Produtos de alto valor.

Vielas adjacentes enredavam um outro mundo.

Tráfico.

Dependência química.

Casas de apostas.

Mercados de armas.

Negociações sussurradas sob a iluminação inconstante dos hologramas.

Enquanto avançavam, Chiyo desviou os olhos.

Engraçado como tudo parecia tão reluzente por fora.

Só ouro em pó sobre ruínas.

As fachadas brilhantes das vitrines escondiam sob véus ilusórios as sombras dos becos.

O cheiro amargo que impregnava o ar se revelava em frágeis quebras efêmeras.

Era como ela.

Uma casca tentando brilhar.

O vazio a corroía por dentro.

Forçou um sorriso.

Protegia Hikaru de um abismo onde ela já havia naufragado.

A sede dos Ryuho-kai dominava o skyline.

Ryūden, Palácio do Dragão.

Aço e vidro negro espelhado refletiam as trevas das ruas abaixo.

Nanodragões vigiavam a torre.

Pisos de mármore obsidiana.

Veios vermelhos cintilavam sob luzes baixas no interior.

Hologramas projetavam círculos de fogo.

Nos andares superiores, protegido por segurança máxima, Kojiro Ryuho supervisionava seu império.

A vista imponente de sua dominância sobre Karyū.

Sobre Kurayami no Sora.

Sobre a Ninkyō dantai.

Kojiro irradiava uma força intimidadora.

Sua figura imponente dominava o espaço.

Hakama escuro.

Jinbei de mangas largas.

Símbolos tradicionais gravados no tecido fluido.

Olhos avaliadores perfuravam a alma como lâminas.

Seu sobrinho, Kotaro Ryuho.

Quatro anos.

Cabelos pretos.

Olhos castanhos.

Curiosidade.

Audácia.

Resolução em sua expressão.

Vestia um kimono de algodão.

Padrões escamosos.

Observava tudo do altar.

“Ele sabe ler, escrever, é muito inteligente.

Hoje tá fazendo oito anos.”

Chiyo tremeu.

Mexeu os dedos inquietos.

O olhar frio do oyabun caiu sobre ela.

“Três milhões de nienes.”

“Mas—”

“Ou nada feito.”

A voz de Kojiro cortante.

“Tá, que seja.

Transfere logo.”

Um gesto do oyabun.

Hiroshi Tanaka, o saiko-komon, iniciou a operação.

Terno escuro.

Postura controlada.

Barba aparada.

Olhos astutos.

“O que tá fazendo, okaasan?”

A voz de Hikaru veio pequena.

O peito apertou.

Ele a encarava, confuso.

Chiyo evitava os olhos do filho.

Resistia olhar.

Pensava que ela como mãe era insuficiente.

Ele precisava seguir de outro jeito.

Talvez eles conseguissem…

Talvez ele sobrevivesse melhor sem ela.

Melhor do que ela sobreviveu.

O nó na garganta apertou até quase sufocar.

Sufocava o coração despedaçado, mas a voz saiu fria. Cruel.

“Você merece mais, Hika-chiba.

Mais do que posso te dar.

Seus novos amigos vão cuidar de você.”

Silêncio.

A frequência cardíaca de Hikaru aumentou.

Respiração rápida.

Pele pálida.

Músculos tensos.

Palmas úmidas.

Estômago revirou.

Frio e calor percorrendo o corpo.

A mente alerta.

“Como assim, okaasan?

Não quero.

Só quero ficar com você.”

“Shiu, Hika-chiba.

Um dia, você vai entender.”

Chiyo virou.

Passado e presente colidiram em imagens fugazes.

Hikaru brincando com um robô improvisado.

O riso dele enchendo o barraco de luz.

A primeira vez que ele disse okaasan com aquela vozinha fina.

Cada lembrança, uma faca virando em seu peito, mas ela continuaria seguindo.

Tinha que seguir.

Lágrimas queimavam.

Dor no coração.

Passos firmes.

Ela saiu.

Deixou os berros desesperados de Hikaru para trás.

Hikaru se debatia desolado nos braços dos homens.

A última coisa que ainda tinha da mãe era o cheiro dela.

shampoo barato e neoheroína.

Ele queria gritar que não entenderia, que nunca entenderia, mas a dor sufocava as palavras.

Chiyo morreu de overdose três luas depois.

Naquela selunia, Hikaru permaneceu acordado.

Passou a noite com os shatei, irmãos mais novos.

O cheiro de Chiyo ainda impregnava suas roupas, mas mãos patriarcais profanas o tocavam indevidamente, manchavam sua pele, deturpavam sua mente e corrompiam sua alma.

UM MESTRE RELUTANTE

S-2858 • L4 Abeluna • D04 Alonabe

Abeluna derrama broto de brilho no alto.

Alonabe alonga o fio do começo.

A maré desenha caminho em prata viva.

A história segue clara, em passo leve.”

Aquele estabelecimento o chamava como um ímã.

O dono, um mistério.

Um membro.

Masaru Inoue.

Um kobun de 54 anos que raramente dava as caras.

Karyū sussurrava segredos entre suas vielas sombrias.

Nos vislumbres entre as entradas dos clientes, a luz projetava padrões dançantes no chão.

Metais.

Robôs.

Tinha que entrar.

Seu coração pulsava naquela direção.

Naquele breu, sabia que um cliente se meteria a falar com Inoue.

Vestiu suas roupas mais escuras.

Véu da noite sobre o corpo.

Respirou fundo.

Invocaria o silêncio.

Seria o silêncio.

Invocaria a escuridão.

Seria a escuridão.

Enfiou-se na longa capa de um senhor.

Deslizou despercebido.

Entrou.

Esgueirou-se para um amontoado de tralhas.

Nanometal polido refletia hologramas pulsantes de circuitos.

Fórmulas complexas dançavam no ar.

Droides.

Robôs elegantes.

Robustos.

Cada um projetado para tarefas específicas.

Manutenção.

Análises.

Estratégia.

Peças robóticas.

Engrenagens brilhantes.

Componentes avançados espalhados em um caos organizado.

No centro, um grande androide.

Olhos piscavam.

O cheiro sutil de óleo de motor.

Eletricidade no ar.

Bancos de trabalho cobertos de ferramentas.

Cômodo repleto de katanas reluzentes.

Cada uma contando sua própria história.

Armaduras samurais ornamentadas com detalhes intrincados.

Um verdadeiro parque de diversões para Hikaru.

Pisou devagar.

Encontrou uma caixa.

Um robô cão-guaxinim.

Carcaça azul acinzentada reluzia no nanometal.

Luzes apagadas.

Desligado.

Esperou.

Inoue atendeu um cliente.

A porta se fechou.

Hikaru respirou fundo.

Mesmo com o coração palpitando.

Mãos suando.

Firmou os pés no chão.

Postou-se diante do homem.

“Por que aquele cão-guaxinim tá desligado?”

Inoue arregalou os olhos castanhos.

“Chikushō!

Quem é você?!

Saia daqui, vai, vai!”

Agarrou seus braços magrelos.

Arrastava-o para a porta.

“Sou Hikaru.

Quero ficar aqui.

Por favor.”

“Está maluco, gaki?

Sai daqui.

Quero evitar problemas.”

Abriu a porta, pronto para jogá-lo na rua.

Hikaru cravou os pés no chão.

“Por favor, não!

Quero fazer robôs.

Eu sei QN-Tec!”

A mão de Inoue hesitou.

Fechou a porta.

Soltou o menino.

“Baka, calado.

É um usotsukiMentiroso?

Hikaru apressou-se a mostrar o diário.

Virou a página.

“Les quantum-nanoparticules possèdent des clés.

Des algorithmes atomiques.

Instables.

Pouvant être stabilisées par des algorithmes programmés.

Dans des quantum-nanites.”

A voz de Hikaru era firme.

Os olhos, ardentes.

Explicou:

‘Quantum-nanopartículas possuem chaves.

Algoritmos atômicos.

Instáveis.

Podem ser estabilizadas por algoritmos programados em quantum-nanites.’

O rosto de Inoue perdeu toda a cor.

Parecia que algo nele estremeceu em silêncio.

“Kuso, que merda.

Como conseguiu isso?”

“Por favor, fico quieto.

Só desejo jamais ser tocado como fizeram.”

Seu sussurro suplicante reacendeu uma dor enterrada no peito de Inoue.

Sua alma enxurrou-se com as lembranças.

Nojo.

Desprezo.

Um amargor encheu sua boca.

Aqueles toques indesejados.

A fúria.

A necessidade de sobreviver.

A obsessão pela tecnologia.

Ele entendia.

Conflito e certeza se entrelaçaram.

Bailavam tragicamente entre medo e desejo.

“Aquele é o Tanu.

Robô defeituoso.”

Subiu a escada de madeira.

Maldição.

No que se meteu?

Um brilho intenso reluziu no olhar de Hikaru.

“Posso mexer nele?”

Inoue fingiu ignorar um pulsar quente em seu coração.

“Nem perca seu tempo, aquele ali é defeito puro.

Só xinga.

Demora para fazer tarefas.

Armas ultrapassadas.

Foi um dos meus primeiros.

Gaki, vai dormir naquele colchão.

Só tem ele.”

Hardware antigo empilhado.

Placas-mãe empoeiradas.

Fios emaranhados jaziam inertes pelo chão como cobras adormecidas.

Um colchão surrado.

Um lençol desbotado.

Um canto.

Lanterna improvisada lançava uma luz trêmula.

Revelava contornos dos objetos esquecidos.

Relicários de memórias de eras passadas.

Metal oxidado.

Poeira no ar.

Um palácio para Hikaru.

Ajeitou o lençol velho.

Sentiu as dobras ásperas entre os dedos.

O colchão agora seria seu refúgio.

Cada objeto ao redor.

As engrenagens esquecidas.

Cada peça contava histórias silenciosas.

E ele estava louco para ouvir.

Mais que um depósito de tralhas…

Para Hikaru, era um mapa para o futuro que queria construir.

“Por favor, me deixa mexer nele, Inoue-sensei?”

Sensei?

Jamais pensou ter um kohai.

Inoue revirou os olhos.

Saboreou o azedo.

Estreitou os olhos.

Analisou o menino, como se tentasse decifrar um enigma.

Seu semblante endurecido vacilou.

Um instante, quase imperceptível, algo brilhou em seu olhar.

Um eco de lembrança o atingiu.

Mãos pequenas.

Sujas de graxa.

Peças quebradas.

A esperança que já se esvaira dele.

Era como se visse uma versão mais jovem de si mesmo.

Alguém que o mundo já havia jogado ao chão tantas vezes.

Talvez…

Só talvez…

Aquele garoto tivesse algo que ele já se desconectara:

A chama da esperança.

Inoue cruzou os braços.

O olhar fixo em Hikaru.

Respirou fundo, como se tentasse afastar algo incômodo.

“Que seja, Hika-baka.

Vai choramingar no seu canto se consertá-lo se provar inútil.”

Inoue bufou.

Tentar esconder o leve curvar dos lábios foi uma máscara lascada, entregando um desafio velado.

“Fique longe das outras criações, gaki.”

TENTAÇÃO

S-2876 • L3 Sintoluna • D18 Libesi

Sintoluna afina céu e caminho.

Libesi libera o fio já maduro.

A maré desenha curva prateada.

A história segue firme, em ritmo vivo.”

Kurokawa.

Um bairro à margem de Kurayami no Sora.

Um labirinto de ruas estreitas.

Amarradas num abraço sombrio.

Edifícios desgastados ostentavam pinturas desbotadas.

Letreiros antigos sussurravam histórias esquecidas.

Tensão elétrica percorria as calçadas.

Bares.

Bordéis.

Néons cintilantes em verde limão, magenta, âmbar.

Atraíam os passantes.

Música eletrônica pulsava.

Rock pesado rugia.

Pop alternativo sussurrava.

Fumo, álcool, comida de rua impregnavam o ar.

Inoue despachou Hikaru.

Queria um tempo sozinho.

O nanoengenheiro trouxe Tanu para acompanhá-lo.

O robô resmungava imparável.

“Aquele velho também, toda hora quer ‘ficar com a solitude dele’.

Que se lasque, outro idiota.”

Hikaru olhou para o céu.

A lua iluminava um vazio gélido na noite.

Fria como o olhar de Chiyo ao deixá-lo para trás.

Por que pensou nela agora?

Será que ela pensou nele antes de…?

Interrompeu o pensamento.

Preferia desconhecer a resposta.

Entrou em uma viela.

Oito gokudos aguardavam.

Não.

Mais.

Centenas espalhados pelos prédios.

“Finalmente a gente vai te pegar, osuinu.”

Um riu, exibindo dentes podres.

“Idiota, no que meteu a gente?”

Tanu brilhou olhos vermelhos.

Avançou.

Componentes se reconfiguraram.

Patas expandiram.

Canhões de energia laser revelados.

“Baka, baka, baka!

Mestre IDIOTA!

NO QUE VOCÊ NOS METEU?!

ELE É UM IDIOTA,

MAS É MEU MESTRE.

FIQUEM LONGE DO MESTRE!!!

Armadura reforçada ergueu-se em torno de seu torso.

Nanoplacas se alinharam.

Óculos escureceram.

Digitalizaram uma mira.

Drones de combate deslizaram de suas costas.

Espetáculo de engrenagens giratórias.

Luzes pulsantes.

Uma máquina de guerra.

Desligada.

Um tiro eletromagnético cortou o ar.

Atingiu em cheio o núcleo.

Tanu parou.

Luzes piscando em frenesi.

Desmoronou.

Corpo metálico retraído, tombando.

Voltou à forma original.

Cão-guaxinim.

“A gente se preparou pra esse teu robô, otário.

Mal posso esperar pela hora de te experimentar.”

Hikaru puxou a katana.

Um dardo cravou-se no seu pescoço.

Escuridão.

Onda de calor percorreu sua pele.

Cada toque, um incêndio.

A pele como em chamas.

Arrepiava-se ao menor contato.

Sentidos aflorados.

Cheiros intoxicantes.

Cores vibrantes.

Sons ressonantes sedutores.

O coração disparado.

Guerra primordial dentro do peito.

Desejos insaciáveis assombravam sua mente.

Pensamentos provocantes.

Euforia.

Vulnerabilidade.

Cada emoção exposta.

Hikaru se sentia vivo.

Intensamente conectado.

Chikushō.

Abriu os olhos devagar.

Um quarto.

Luzes lânguidas.

Risadas dos malditos enchiam seus ouvidos.

Tentou se esquivar.

Suas pernas e braços amarrados.

Kimono frouxo até a cintura.

Pele exposta.

Tatuagens descobertas.

Nas costas, um imponente dragão.

Escamas escuras.

Olhos penetrantes.

Ao longo da coluna, gatos estilizados.

Flores de cerejeira.

Ondas.

Um felino enroscado ao redor de seu coração.

Padrões dracônicos ramificavam-se pelo peito.

Antebraços.

“Só tamo começando, rostinho bonito,” um sussurro pegajoso tocou sua orelha.

Nojo e excitação envenenavam os sentidos.

O que fizeram?

Por que seu corpo traía sua mente?

“Kore nan da kuso?!

DA KORE KUSO?!

Alguém gritou:

‘Que porra é essa?!

DESGRAÇA, QUE ISSO?!’

O fervor trouxe flashes de sangue espalhado pelo chão.

Um membro foi arremessado pela janela.

O homem em cima de Hikaru se virou.

“Tá fazendo o que, Riko?”

Um androide de acabamento prateado correu contra ele.

Sem tempo para se defender, sua força o empurrou.

Vidros estilhaçaram.

Os dois caíram pela janela.

Hikaru abriu mais os olhos.

Uma aura intensa o envolveu.

Um cara entrou.

Encapuzado.

Casaco preto longo.

Inspirou fundo.

Fechou a porta devagar.

Passos lentos na poça de sangue.

Um estalo de língua percorreu o ar.

Deslizou pelos ouvidos de Hikaru.

Apoiou as mãos nos braços da cadeira.

Projetou-se em cima dele.

Seu perfume cítrico entorpeceu Hikaru em uma sinfonia surpreendente amigável.

Cheirava melhor do que aqueles nojentos nauseantes.

O ser encapuzado passou a língua macia no pescoço do nanoengenheiro.

Saboreou o gosto similar ao chocolate amargo.

“Te deram Erosen.

Soube que dura dez horas.”

Sua voz rouca. Envolvente. Ressonante.

Os pelos de Hikaru eriçaram da cabeça aos pés.

Suspirou um gemido.

Droga.

Fazia aquilo sem querer.

Dedos ásperos.

O gelado do metal dos anéis.

Trouxeram seu rosto para encará-lo.

Olhos âmbar reluziam sob o capuz.

Devoravam o nanoengenheiro.

O sorriso insinuava uma promessa perigosa.

O olhar, pura devassidão.

Curioso.

Pela primeira vez, mergulhou no precipício do olhar.

A alma de alguém.

Quem realmente era aquele nanoengenheiro?

Só lhe foi permitido enxergar aquele medo que nada lhe apetecia.

Claro, ele jamais negaria aquela delícia diante de si.

Ele nem precisava tocá-lo.

O gatinho se contorcia sozinho.

O nanoengenheiro exalava um aroma de bambu e metal.

O ardor só o tornava mais intenso.

Penetrava fundo em seu ser.

Nunca tinha sentido nada igual.

Arrastou uma cadeira.

Instalou-se diante de Hikaru.

Abaixou o capuz.

Fios ondulados caíram sobre sua testa.

Seu cabelo, metade castanho escuro, metade branco.

As mesmas cores misturavam-se nos cílios.

Sobrancelhas.

Pele bronzeada.

Apoiou o cotovelo na cadeira.

Pernas abertas.

Roçou os dedos nos lábios sorridentes.

O olhar dourado carregado de provocação.

Kuso.

Quem era esse cara?

O olhar cravado nele disparava correntes elétricas por sua espinha.

Conter-se se mostrava inútil.

Aquele prazer vinha a cada segundo.

Amarrado, torcia-se na cadeira.

Ondas voluptuosas do Erosen o tragavam.

Transpiração quente.

Respirações ofegantes.

Horas se arrastaram.

O cara banqueteava-se com a visão de Hikaru.

Hikaru resistia aos efeitos eróticos.

Desejava dormir.

Em vão.

Aquela presença avassaladora.

Pervertida.

Desafiava.

Excitava.

Repelia.

Atraía.

Assustava.

Fascinava.

Onze horas depois

O nanoengenheiro desabou.

Exausto.

ALINHANDO FREQUÊNCIAS

Hikaru acordou rodeado de paredes azuis compactas.

Luzes suaves de néon roxo sob painéis de madeira.

Deitava-se em um colchão de seda escura.

O coração disparou.

Vestido e livre de amarras, levantou-se.

Outro ambiente.

Paredes transparentes mudando de opacidade.

Armazenamento para suprimentos.

Uma cama dobrável.

Holoconsoles de navegação e entretenimento.

Continuou até ser engolido pelo breu absoluto, exceto pelas luzes na proa do pequeno nanobarco.

Nanocasco nanoaerodinâmico.

Estrutura QNanotecnológica.

Nanopainéis solares integrados.

Propulsão tão silenciosa que o silêncio ressoava o mesmo do mar abissal.

Cortava as águas imprevisíveis do Pacífico como uma sombra.

Kuso.

A figura misteriosa se encostava no parapeito.

Guardou as cartas de baralho no bolso.

Quem era esse cara, afinal?

Hikaru se perguntava.

Ele se virou para o nanoengenheiro.

Finalmente tinha despertado.

Seus olhos sorriram, mas sua alma silenciou.

Uma estranheza incomum pairava nela.

Vinha da presença do enigmático Sete de Copas.

Ele puxou pensando no nanoengenheiro.

“Hika-chan resolveu acordar?”

Ele sabia seu nome.

Como se meteu naquela situação perturbadora?

Aqueles malditos…

Esse cara…

Que desgraça estava acontecendo?

“Quem é você?”

Ele alargou o sorriso.

Aquele medo.

Aquela vulnerabilidade antes tão viciante…

Sumiram.

Agora enfrentava um gato selvagem.

Traços felinos firmavam seu semblante tenaz.

Pela primeira vez, um pulsar estranho no coração.

Pouco importava.

Quão divertido seria brincar com ele?

Saymon.”

Saymon?

O que ele queria?

Hikaru se aproximou dele.

Por que sentia um fervilhamento diante daquele ser?

Sua aura o alertava a níveis que nunca sentiu na Ninkyō dantai.

Exalava terror.

Ganância cruel.

Algo além do medo.

Se fosse só isso…

Mas havia outra coisa.

Algo que queimava diferente.

Algo que ele queria continuar a inomear.

Estava fora da influência do Erosen.

Porque vibrava uma…

Não.

Loucura.

Impensável.

“Para onde está me levando?”

Algo lhe dizia que lutar seria inútil.

Saymon chegou mais perto.

Perto o suficiente para tirar o fôlego de Hikaru.

Ele sustentou o olhar dourado.

Postura firme.

“Ilha de Trindade.”

A voz rouca dele soprou um arrepio quente pela espinha.

O nanoengenheiro se afastou.

Os ombros cederam.

Um peso novo pressionando o peito.

Tanu…

A culpa mordeu sua mente.

“Preocupado com seu amigo?”

O tom cortante o fez virar.

O robô desativado repousava contra a parede.

Ainda ali.

Um alívio morno preencheu seu peito, mas algo ainda pesava.

“Vai ligá-lo?”

Hikaru acenou, apoiando-se no parapeito.

“Deixa para lá.”

Talvez fosse melhor assim.

S-2876 • L3 Sintoluna

“Quatro dias, um mesmo céu em sintonira viva.

Teceli firma o passo; Abete abre espaço manso.

Alonli alonga a curva; Silenri sela o fio fino.

Sintoluna guia a maré — e a história segue em tom exato.”

D20 Teceli

Enfrentaram águas tranquilas.

A previsão apontava tempestades no horizonte.

Saymon analisava as cartas náuticas.

Hikaru ajustava os nanomotores.

D22 Abete

Uma tempestade tropical rompeu o rumo traçado.

Ondas altas.

Ventos cortantes testaram a resistência.

Utilizaram nanoestabilizadores para evitar danos.

Hikaru mantinha a calma.

Dirigia com precisão.

Saymon cuidava dos suprimentos.

Trocavam raras palavras.

D25 Alonli

Após a tempestade, as condições melhoraram.

Navegaram por desafiadores recifes ocultos.

Saymon, olhar aguçado.

Identificava áreas perigosas a tempo.

Hikaru conectava o nanosonar para mapear o fundo do mar.

Evitava colisões.

Naquela noite, Hikaru sonhou.

Uma raposade olhos dourados o rodeava.

Farejava o medo.

Saboreava a inquietação.

Acordou agitado no meio da madrugada.

Andou até a proa.

Saymon fitava o horizonte.

“Pesadelo, Hika-chan?”

Vento e pingos de água resvalaram em sua expressão indomável.

“Insônia?” O nanoengenheiro perguntou e segurou uma tossida do cheiro pesado de enxofre do mar poluído.

Saymon encurtou a distância entre eles.

Trouxe consigo sua aura esmagadora.

Acariciou as bochechas de Hikaru com a ponta dos dedos.

Como dormir perto de um alvo tão divertido?”

Ele sorriu de lado quando o nanoengenheiro lhe deu as costas e voltou para seu quarto.

Hikaru cerrou os punhos.

O coração acelerado, desgovernado.

Por que maldições batia daquele jeito?

Chikushō.

D27 Silenri

Avistaram uma embarcação.

Saymon tocou as costas de Hikaru.

“Aquela embarcação parece suspeita.

Vamos desviar,” sussurrou perto do ouvido dele.

Hikaru ignorou os arrepios.

A pele eriçada.

O rosto aquecido.

Ativou a nanocamuflagem.

Saymon o observava no seu próprio ritmo enquanto embaralhava as cartas em Chuva de Caos, os olhos sorrindo raposinos.

Cada embaralhar era pincelada no vento.

O baralho se abriu como nuvem estourada.

As cartas despencavam em chuva seca, tilintando no ar como lâminas de papel.

Antes de tocar o chão, o gesto dele as capturava em leque, como se a gravidade fosse só mais uma marionete de seu caos.

E assim, os dois navegavam pelas águas agitadas.

Por frequências invisíveis que os testavam.

Ora se expandiam.

Ora se fundiam.

Harmonia dissonante.

RESSONÂNCIA CAÓTICA

S-2876 • L3 Sintoluna • D28 Silente

Sintoluna afina o fio final do céu.
Silente derrama quietude luminante.
A maré recolhe prata em curva leve.
A narrativa sente o portal se abrindo.”

Alcançaram a Ilha de Trindade.

Plena noite.

Mar agitado.

Uma névoa rastejava pela ilha, envolvendo-a como um espectro.

Ancoraram-se na enseada.

Esconderam o barco entre as rochas.

Ativaram a nanocamuflagem.

O barco tornou-se invisível aos nanoradares.

Um só com a escuridão.

Saymon carregava uma mochila.

Hikaru levava Tanu.

Os dois vestiam nanotrajes compostos de q-nanites.

Nanotecidos moldados pela engenhosidade da Regnante Maia.

Desceram por uma rampa retrátil.

Os pés afundaram nas pedras molhadas.

Moveram-se pelo terreno irregular.

Rochas traiçoeiras.

Folhagem rasteira.

Nanocâmeras ocultas entre galhos.

Silhuetas espreitavam entre as falésias.

Hikaru ligou Tanu.

O cão-guaxinim piscou as luzes, espreguiçando-se.

“Idiota, demorou dias pra me ligar.”

A voz robótica saiu fina, rabugenta.

Sacudiu-se.

Ajustou o suéter.

Os olhos brilharam.

Mirou Saymon de cima a baixo.

Torceu o focinho.

“Quem é esse otário?”

“Calado, Tanu, vamos nos infiltrar naquela mansão.”

A voz de Hikaru saiu serena.

Ondas sutis tiniram no ar.

E em Saymon.

O mercenário focou no robô.

Tanu cruzou os bracinhos mecânicos.

“Imbecil nem diz oi.”

As orelhas se mexeram.

“Vou matar vocês depois que terminar.”

Avançaram.

Drones patrulhavam os céus.

Tanu projetou um nanoescudo camuflável.

Sumiram no cenário.

Terreno íngreme.

Mata densa.

Trincheiras velhas.

Lamacentas.

Vestígios de um passado militar.

Os túneis foram reativados.

Guaritas.

Guardas.

Sensores térmicos.

Ouviram passos.

Vozes se aproximando.

Rastejaram.

A lama gelada colou na veste de Hikaru.

“Sempre quis me arrastar na lama? Não,” Tanu murmurou.

Desativava sensores ao longo do caminho.

“Meu mestre? Imundo.”

A mansão se erguia no topo da ilha.

Imponente.

Deslocada do tempo.

Uma relíquia do Renascimento italiano.

Colunas de mármore branco.

Janelas arqueadas.

Esculturas ornamentadas.

Torres de segurança emergiram discretas.

Tanu hackeou os portões.

Códigos liberados.

Passagem temporária.

Ação dos trajes.

Proteção de Tanu.

Superaram as barreiras.

Nanobarreiras.

Detectores térmicos.

Sensores de movimento.

Nanoalarmes.

Toda a fortaleza interligada à IA central.

Nada os captou.

Pisos de mármore escuro refletiam luzes flutuantes.

Poltronas de couro adornavam o hall luxuoso.

Obras minimalistas adornavam as paredes.

Holopinturas pulsavam em exibição.

Saymon seguiu um corredor discreto.

Tapetes vermelhos.

Candelabros de cristal.

Uma biblioteca.

O cheiro de couro antigo e madeira polida.

Ele puxou um dos livros.

A estante girou, revelando uma passagem oculta.

Escada estreita.

Pequenas luzes embutidas iluminavam os degraus.

Uma porta simples.

Exceto pelo cadeado sofisticado.

Saymon sacou o Sete de Paus.

Os píxeis da carta se fundiram aos códigos.

Shhhhhhh

A fechadura gemeu.

A porta abriu.

Escuridão.

Vidros reflexivos exibiam holoinformações.

Transações ilegais.

Redes de espionagem.

Esquemas financeiros complexos.

Uma grande mesa.

Dispositivos interligados ao servidor central da ilha.

Saymon quebrou o silêncio.

“Pegue todos os dados que conseguir.”

Ele tirou da mochila várias latas de spray preto.

Começou a se mover como se estivesse em transe.

Cada borrão de tinta, um golpe calculado.

Hikaru franziu as sobrancelhas.

O que aquele cara estava fazendo?

Intrigado, conectou Tanu às fontes elétricas.

Mergulhou no virtual.

Horas passaram.

Descobriu.

Lúcio Reis.

Relações Internacionais da UNITED em São Paulo.

Figurão de primeira linha.

Porém, achou mais.

Muito mais.

O que aquele cara iria fazer com aquelas informações?

Vai saber.

Seu corpo protestava.

Músculos tensos.

Ossos doíam.

Cérebro em ebulição derretia.

Mas havia algo além do cansaço.

Algo maior.

Sensação opressiva.

O ar ao redor se deformava com a mente.

Ele virou.

E a realidade se dissolveu.

Sentiu inquietação. Agonia. Deslumbramento. Paixão. Angústia. Raiva. Ódio. Fúria. Vingança.

O cômodo estava selado.

Preto.

O preto gotejava pelas paredes.

Escorria pelas prateleiras.

Engolia o espaço.

Traços erráticos.

Agressivos.

Entrelaçados em padrões caóticos.

Figuras grotescas emergiam da tinta.

Rostos distorcidos.

Olhos deturpados.

Criaturas macabras.

Garras estendidas.

Espirais rodopiantes.

O mundo parecia girar.

As luzes tênues criavam sombras vivas.

Tormento odioso.

Mas era mais do que só a parede.

Era Saymon.

Cada traço, uma cicatriz, uma confissão, uma ferida aberta.

Crua.

Sangrando.

As paredes falavam.

A pintura gritava uma ressonância perturbadora.

O preto vibrava uma frequência caótica em sua mente.

As linhas erráticas da tinta dançavam com a aura de Saymon.

Hikaru lutava entre querer olhar mais ou fugir dali.

Ele engoliu seco.

Saíram em silêncio.

Saymon.

Hikaru.

Tanu.

A noite os envolveu.

Furtivos entre as árvores.

Porém, a pintura estava ali.

Os rostos distorcidos.

As sombras pulsantes.

E Hikaru sentia aquele cômodo dentro de si.

Ainda pulsando.

Alcançaram o barco.

Hikaru lançou um olhar demorado para a ilha.

As ondas batiam no casco e os traços obscuros vibravam atrás de suas pálpebras.

Ele queria perguntar, mas não sabia se queria uma resposta.

“Otário tá fazendo—”

Tanu resmungou.

A voz robótica sumiu.

Hikaru se virou.

Saymon estava ali.

Cara a cara.

A respiração quente roçando na pele do nanoengenheiro.

Bom gatinho, hora de mimir.”

CASA

S-2876 • L3 Sintoluna • D28 Silente

Sintoluna afina o fio final do céu.
Silente derrama quietude luminante.
A maré recolhe prata em curva leve.
A narrativa sente o portal no ar.”

ALGUMAS HORAS DEPOIS

SOLTERRA, NETHERIA, SÃO PAULO, BRASIL

Hikaru acordou.

Esfregou a testa, dor latejando.

Sentou-se.

Que desgraça foi essa?

Caixas empilhadas ao redor.

Tralhas, ferragens enferrujadas.

Tecidos sujos, equipamentos esquecidos.

Tossiu.

Poeira seca arranhando os pulmões.

Kuso.

Lar doce lar.”

Passos arrastados rasgaram o silêncio.

Saymon se agachou perto dele.

“Faça o que quiser com o lugar.

Só tem que ficar por aqui.”

O nanoengenheiro franziu as sobrancelhas.

“Onde eu estou?”

“Logo vai descobrir. O Pai quer te ver.

Muito em breve.”

CICLOS

S-2877 • L3 Sintoluna • D28 Silente

Sintoluna afina o fio do alto.
Silente derrama prata quase inteira.
A maré recolhe canto em curva leve.
O portal já brilha no ar.”

BILAB, SOLTERRA

Quase uma da manhã.

Hikaru arrastou-se até o quarto, exausto.

Organizava as informações requisitadas pelo Pai e a Matriarca.

Vendia dados para mercenários.

Lidava com suas criações robóticas.

Queria mais tempo para elas.

Azul e prata deslizaram sobre ele.

Lençóis brancos na cama.

nanocolcha trocava lentamente de cor.

Hologramas projetavam dados.

Gráficos.

Dispositivos.

Robôs.

Ferramentas.

Droides.

Miniaturas desmontadas abarrotavam a mesa.

Estantes de vidro erguiam-se até o teto.

Abarrotadas de livros.

Gadgets.

Artefatos curiosos.

Frascos com nanoamostras, etiquetados com precisão.

Uma planta purificava o ar.

Sofá assimétrico repousava no canto.

Almofadas texturizadas.

Um pequeno bar exibia bebidas exóticas e energéticas.

Pensou em lapidar aquela aranharô.

A dor fisgou o ombro.

Tomou uma ducha.

Saiu… e congelou.

Uma sombra do passado o esperava.

Estava sem o ver há um ciclo solar.

Encharcada da cabeça aos pés.

Coberta de sangue.

Um rastro de água vermelha serpenteava pelo chão.

Vinha da parte superior.

Kuso.

Como ele entrou por cima?

Tinha certeza de que toda aquela área era impenetrável.

As janelas.

Os acessos.

E ainda assim, lá estava ele.

Maldição.

Esse cara de novo.

Saymon exibia um sorriso vermelho.

Cortes marcavam a face e o pescoço.

Olhos dourados faiscando entre hematomas roxos.

Casaco rasgado, revelando ferimentos profundos nos braços.

Caminhava devagar, um leve mancar na perna direita.

Que desgraça aconteceu com ele?

Mesmo naquela condição, sua aura intoxicante enredava Hikaru.

Ele recuou até colidir contra a parede.

O cheiro metálico do sangue se misturava ao perfume cítrico do mercenário.

Saymon inclinou-se sobre o nanoengenheiro.

Ergueu o cupcake molhado.

Tanjōbi omedetō, Hika-chan,” sussurrou nos ouvidos dele, Feliz Aniversário.

A cadência sedutora em sua voz.

A tensão vibrava no ar.

A pressão cedeu.

Saymon desabou.

Hikaru deu banho nele.

Cuidou das feridas.

Sentou-se no sofá.

Confuso.

Perplexo.

Quantas cicatrizes.

Que tatuagens eram aquelas?

O que significava aquele cara dormindo na sua cama?

Adormeceu horas depois, ali mesmo.

Acordou na cama.

Uma mão pesava em sua cintura.

Mexeu a cabeça.

Deveria estar sonhando.

Não.

Poderia ser um sonho, mas era real.

Aquele cara continuava ali.

Mais do que isso.

Quando ele foi parar na cama?

O toque de Saymon apertou.

Um arrepio disparou pelo corpo de Hikaru.

Relâmpagos.

O nanoengenheiro se desvencilhou do abraço.

Levantou-se.

O coração descompassado.

Saymon abriu os olhos.

Desperto.

Brilhantes.

Divertidos.

O olhar dele trancou no olhar incerto de Hikaru.

Vestiu-se devagar.

Antes de sair, aproximou-se.

Perto.

Demais.

Tirou o ar de Hikaru.

“Hum, um gatinho de olhos pretos apareceu nos meus sonhos hoje.

O que será que significa?”

O sorriso, pura dança de provocação.

Os olhos, incêndios silenciosos.

“Acho que você vai gostar da visita hoje mais tarde.”

Saiu, cruel. Indiferente.

Hikaru afundou na cadeira.

Tentava desemaranhar aquilo.

Chikushō.

Esse cara.

Fim da tarde

Uma energia explosiva irrompeu pela porta.

Inoue atravessou a biblioteca como um furacão.

“Baka, é aqui que você está se escondendo?

Como pôde me trair desse jeito?”

A voz transbordava ferida.

“Eu só queria ficar sozinho por algumas horas, não por um ciclo solar inteiro!”

Hikaru explicou centenas de vezes.

Mesmo assim, Inoue retornou indignado para o Japão.

Decorrer daquele ciclo solar

Aquela cena.

Aquela repetição.

Aquele ciclo.

De lunações em lunações.

Saymon surgia no tardar da noite.

Ensanguentado.

Ferido.

Desmaiava.

Hikaru o banhava.

Tratava seus machucados.

Deixava-o na cama.

Dormia no sofá.

Acordava na cama.

Nos braços de Saymon.

Saymon despertava.

Ia embora em silêncio.

Sinceramente, por que ainda se frustrava com aquela merda?

Por que esperava algo diferente?

Nem o nanoengenheiro entendia aquelas cócegas no coração.

E a irritação com a frieza.

Aquela maldita irritação.

Por que se importava com isso?

Desgraça.

Tanu surgiu com uma xícara de café.

“Mestre, por que esse cara tá sempre agindo…

Como se fosse o único que importa?”

Os olhos brilhantes analisaram Hikaru.

“Ele nem agradece!”

A voz fininha se elevou.

“Só porque ele te olha desse jeito, desse… nem eu sei dizer…”

Ajeitou o suéter cinza.

“Você é um idiota, isso sim.”

Hikaru bebeu um gole.

O café desceu quente pela garganta.

Insuficiente para aquecer aquele aperto no peito.

Apertou os olhos.

“Calado, Tanu.”

A voz saiu firme. Fria.

“Já fez o que te pedi?”

Tanu torceu o focinho.

Virou-se, rabugento.

Murmurou baixo, mas foi percebido.

“Já vou, já vou…

Finja o quanto quiser…”

As orelhas giraram de leve.

Sinto seus batimentos cardíacos quando está perto dele, otário.”

Hikaru ficou em silêncio.

“Você pesquisou aquela pintura no Tribunal Federal Aether?

Os zênitas chamam o artista anônimo de Artista do Caos.

Acho que, pelo que vimos aquele dia na Ilha, tenho meus palpites de quem ele realmente seja.”

O som dos passos metálicos do cão-guaxinim se afastava, mas as palavras dele não.

Ecoavam, como um motor desajustado.

Ele queria ignorar.

Queria esquecer, mas sabia que fugir disso para sempre era uma ilusão.

Os dedos apertaram a xícara.

Mais do que pretendia.

O café dentro tremulou, e dentro delealgo também.

CONEXÃO

S-2878 • L6 Teceluna • D22 Abete

Teceluna tece caminho em fio firme.
Abete abre espaço em luz mansa.
A maré desenha curva em prata viva.
A história segue em desenho claro.”

Tanu ajudava Hikaru com os dados da Bratva.

Robôzinhos zuniam ao redor.

Livros, documentos, objetos voavam pelos ares.

“O que vão fazer agora que a arma sumiu?” murmurou o nanoengenheiro, olhos fixos na holotela.

“Sei lá, mas aquela Trix é maluca.”

O cão-guaxinim compilava as informações principais.

A atmosfera mudou.

O ar pesou.

A mudança veio como um fio de gelo na nuca.

A frieza de sua aura sempre o alcançava de longe.

O perfume cítrico, primeiro sinal.

“Tanu, pode ir.”

Hikaru massageou a testa.

O que esse cara queria agora?

O robô obedeceu.

Saymon estalou a língua.

Deslizou os dedos pela mesa.

Pegou um componente tecnológico.

Girou entre os dedos.

“Preciso de uma arma.”

Ao menos, não era uma visita enigmática na madrugada.

“Armas não são minha especialidade.”

Sua voz taciturna ondulou em Saymon.

O mercenário sorriu.

Hum, bom.

Saymon girou a cadeira, travando Hikaru no assento.

O corpo sobre ele.

O rosto próximo.

Demais.

Os olhos dourados arderam insinuantes.

“O Tanuzinho se mostrou uma qn-arma bastante formidável.

Apesar da… essência caótica que o habita.”

Saymon tocou a cicatriz na própria testa.

“Me conecto a mais de um androide.

Só posso fazer isso ao tocá-los.

Quero mudar isso.

Hikaru desviou o olhar.

O coração palpitou.

Ficou difícil respirar.

Ele realmente disse que controlava mais de um androide?

Impossível.

“Não sei como posso ajudá-lo.”

Saymon inclinou o rosto.

Os lábios se curvaram.

“Tu es sûr, minou?

Des particules quantiques stabilisées par des nanites quantiques.

Ce n’est pas ta spécialité?”

A voz cálida deslizou pela espinha de Hikaru.

‘Certeza, gatinho?

Quantum-partículas estabilizadas por quantum-nanites.

É essa sua especialidade?’

Francês.

Isso significava…

Suspirou.

“Me siga.”

No laboratório nos fundos, pediu para Saymon deitar na maca.

Os sinais vitais surgiram na tela.

Conectou as análises quânticas.

Escaneou o mercenário da cabeça aos pés.

O que infernos era aquilo?

Como esse cara tinha aquela quantidade insana de q-nanites dentro dele?

A cabeça de Hikaru girou.

Centenas de dúvidas.

Pouco importava.

“Como a conexão funciona?”

Saymon explicou brevemente o funcionamento da Gagner.

Isso explicava muita coisa.

Mesmo atordoado, Hikaru admitia a reverência silenciosa diante do que via.

Aquelas q-nanitesa dona do diário ajudou a cocriá-los.

Aquelas passagens sobre transcendência de redes interfractais e tecnoneurais deveriam se referir a Gagner.

Sua cabeça fervilhou ideias.

Como faria aquilo?

Coletou o sangue de Saymon.

Nas luas seguintes, trabalhou intensamente no qn-protótipo.

Duas pistolas.

Balas carregadas com o DNA do mercenário.

No meio da confusão de fórmulas e códigos, Hikaru parou.

As palavras de Chiyo ecoaram em sua mente:

A química sempre encontra equilíbrio, principalmente no caos.

Ele nunca entendeu bem o que ela queria dizer.

Mas agora…

Talvez fizesse sentido.

E então, chegou a algo promissor.

Algumas lunações depois

Saymon surgiu de madrugada.

Familiarmente ensanguentado.

Hikaru cuidou dele como sempre.

Dormiu no sofá.

Acordou ao seu lado na cama.

Fez café.

Saymon despertou.

Transmitia a frieza costumeira.

Merda.

Por que aquela apatia incomodava tanto?

“Aqui.”

Hikaru entregou a pistola para ele.

“Os q-nanites que você enviaria para o androide, faça isso nessa parte.

A bala vai encapsular o q-nanite.”

Os olhos âmbar faiscaram prazer.

Quase colou o rosto no do nanoengenheiro.

Aquele perfume de bambu e metal que Hikaru exalava…

Por que ele gostava?

“Bom gatinho.”

Saymon sorriu charmoso.

Hikaru foi incapaz de conter o calor no peito.

Saymon apertou os olhos.

“Soube que encontrou minha amada irmãzinha, Maia.”

Ele passou a mão por cima do kimono azul escuro de Hikaru, sentindo a parte nanometalizada do nanoimplante da caixa torácica direita.

O nanoengenheiro estremeceu discretamente.

“O que você fez que a deixou tão furiosa?”

A risadinha divertido desafiou Hikaru com uma sutileza genuína.

Ele apenas expressou um “Tsc”.

O mercenário sorriu, insinuoso.

“Senti que vocês poderiam se dar bem.”

Hikaru tentou esconder a surpresa inesperada nos olhos, mas seus olhos pretos trancaram com os olhos dourados em uma frequência magnética.

Saymon estalou a língua.

O hálito quente roçou na face do nanoengenheiro.

“Sabe, o jeitinho que você está me olhando… realmente me faz querer ainda mais você.

Kuso.

Hikaru desviou o rosto e afastou-se.

O sorriso de Saymon se desfez.

Por que sentiu aquele desânimo?

Não importava.

Ele foi embora.

Hikaru apertou os punhos.

Maldição.

Só esse cara o fazia sentir-se estranho.

CISÃO

S-2878 • L8 Libeluna • D14 Irrali

Libeluna solta o fio que pesa.

Irrali irradia luz inteira.

A maré canta alto em prata viva.

A história tece presença no ar.”

Passos no andar de cima.

Rápidos.

Secos.

Cortantes.

Hikaru disparou pela escada.

O peito apertado.

Maia jazia inerte em sua cama.

Fria.

Silenciosa.

Pálida.

Como se estivesse…

A presença de Saymon sufocava o ar.

Exalava uma energia violenta.

Odiosa.

Implacável.

“O que você fez com ela?”

A voz do mercenário fervia de desprezo.

Hikaru se aproximou devagar.

Parou no meio do caminho.

O medo arranhou sua garganta.

Temia tocá-la.

E se fosse tarde demais?

Dor.

Culpa crescia em seu coração.

O q-nanite híbrido com a Regnante…

Funcionou.

Ele testou.

Testou inúmeras vezes.

Então, por quê?

Impossível tentar entender agora.

Precisava levá-la ao único que poderia salvá-la.

Masaru Inoue.

Deixou Maia sob os cuidados do mestre em Tóquio.

Retornou para Netheria.

Caminhava pelas ruas sombrias do submundo paulista.

O vazio ao redor ressoava dentro de si.

Liberdade nunca pareceu tão distante…

Ou tão próxima.

Talvez o caos seja o caminho.

Saymon não apareceu mais, mas sua sombra ficou, como brasas de um incêndio extinto.

Queimando, ardendo, na mente de Hikaru.

Um enigma.

Talvez nunca decifrasse.

Talvez nunca quisesse.

Talvez desconhecer fosse a única resposta possível.

Talvez só quisesse sentir.

💌 Nota da autora

Boas-vindas a um fragmento de Universos Fragmentados, onde mundos se cruzam, tecnologia e emoção coexistem, e cada história é apenas um pedaço de algo maior.

Este conto, “Raposas Sonham com Gatos?”, é uma porta de entrada para cidades futuristas, personagens complexos e dilemas éticos que habitam o Corpomegaverse e os Universos Fragmentados.

Ao ler, permita-se mergulhar nos detalhes, sentir a atmosfera e explorar cada fragmento. Cada palavra é pensada para conectar você à filosofia de ACHLEG — Amor, Confiança, Harmonia, Liberdade, Evolução e Gaia — e aos encontros com seres e tecnologias que questionam o que é humano, o que é consciente e o que sonha.

Descubra, imagine e descubra o multiverso que existe além das páginas.

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